Dia reservado à prática de alertar a mente.
(adaptado de Thich Nhât Hanh em “O milagre da Mente Alerta”)

Selecione um dia da semana para a prática da mente alerta. Se não puder fazê-lo semanalmente, agende um dia qualquer para esse exercício. Melhor experimentar do que esperar que a vida que dê espaço livre para encaixar esta prática. Às vezes só depois dessa primeira experiência é que compreendemos que é possível encontrar espaço para esse dia especial.

Na véspera deixe um aviso escrito, visível da cama, para que desde o primeiro momento você saiba que este é o dia. Antes de levantar-se, dê um sorriso suave. Aproveite o bem estar de saber que este dia é só para você.

Esqueça o trabalho que costuma fazer nos outros dias. Não organize nenhum encontro nem tenha amigos ao redor. Faça só trabalhos simples como limpar a casa, cozinhar, lavar roupa. Gaste um bom tempo para fazer cada coisa. Mova-se lentamente, três vezes mais devagar do que costuma. Ponha inteira atenção em cada coisa que estiver fazendo. Evite movimentos bruscos. Mantenha a mente atenta à respiração, especialmente quando seus pensamentos começarem a divagar. Se precisar, pare por uns instantes e recomece o que estava fazendo.

Depois de ter posto tudo em ordem, tome um banho. Gaste uns trinta ou quarenta minutos tomando banho. Não se apresse sequer por um segundo. Do momento em que começar a preparar a água na banheira até o momento de vestir as roupas limpas movimente-se suave e lentamente. Esteja alerta a cada movimento, por menor que seja. Esteja cônscio de cada pedacinho do corpo ao lavá-lo, esteja cônscio de cada gota de água que escorra. Ao terminar o banho, sua mente deverá estar tão tranqüila e leve quanto seu corpo. Siga a respiração.

Em seguida prepare um bule de chá (se você não tiver hábito de chá, pratique ao preparar qualquer outro alimento leve que faça parte de seus hábitos, ou inicie o hábito de chá). Cada movimento deve ser feito lenta e conscientemente. Não deixe que nenhum gesto se manifeste sem que esteja consciente dele. Mentalize que suas mãos estão levantando o bule pela asa. Saiba que está pondo o chá na xícara, siga cada passo conscientemente. Se sua mente começar a se dispersar, concentre-se na respiração. Se precisar, recomece tudo o que fez, mas não perca o prazer de estar consciente de cada momento, do preparo à ingestão vagarosa do chá. Saboreie, deguste o chá como nunca o fez antes.

Você pode fazer a leitura de algum texto ou escrever para amigos. Ao ler ou escrever mantenha sua mente desperta. Ao ler o texto, saiba que o está lendo. Ao escrever a carta, saiba que a está escrevendo. Da mesma forma se ouvir uma música. Não deixe tocar uma música simplesmente como pano de fundo para o que você está fazendo. Pare para ouvi-la.

Faça uma ou duas caminhadas, de meia hora ou quarenta e cinco minutos, ao longo do dia. Caminhe exercitando a respiração. Conte sua respiração mentalizando ao inspirar: “um”. Ao expirar: “um”. Na segunda inspiração, inspire mentalizando: “dois”. Ao expirar: “dois”. Continue assim até dez. Ao chegar ao número dez, recomece outra vez de um. Sempre que perder a contagem retorne ao um. Contar de um a dez ajuda a controlar a atenção; se você não chegar no dez ou se, contando automaticamente, passar de dez, você saberá que sua mente dispersou-se. Outra maneira de caminhar exercitando a atenção é observar todo o ambiente à sua volta durante a caminhada. Cada planta, cada relevo, o aspecto da calçada, aparência das fachadas das casas, os animais. Durante a caminhada, confira de tempos em tempos se você é capaz de dizer onde estavam as pessoas e os objetos que você encontrou pelo caminho, se as portas e janelas estavam abertas ou fechadas, qual era a cor do muro. Se você não for capaz de responder às suas perguntas, refaça esse trecho da caminhada e ponha a sua atenção mais profundamente.

À noitinha, prepare uma refeição leve ou coma somente algumas frutas. Sente-se para meditar por uma hora antes de ir para a cama. Não leia antes de deitar-se. Em lugar de ler, faça um total relaxamento por cinco ou dez minutos. Deite-se de costas sobre uma superfície plana, sem usar colchão ou travesseiro. Estenda os braços ao lado, à vontade, e as pernas ligeiramente afastadas. Mantenha leve sorriso. Focalize a atenção na respiração, inspirando e expirando suavemente. Solte todos os músculos do corpo. Relaxe cada músculo até senti-lo como se estivesse afundando no chão, ou como se fosse uma tira de seda macia pendurada para secar na brisa. Solte-se inteiramente, mantendo a atenção na respiração e no leve sorriso. Imagine-se como um gato, relaxando estendido diante do calor do fogo, cujos músculos cedem sem resistência ao toque de qualquer pessoa. Respire acompanhando o levantar e baixar do estômago e do peito, olhos fechados. Nesse dia, qualquer movimento deve ser feito pelo menos duas vezes mais lentamente do que de costume.

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dra. denise menezes©